segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Queimadas

A ideia de escrever me veio depois deste sábado...
Programei meu dia para estudar de manhã e escolher um lindo vestido azul para o casamento da minha melhor amiga, dia 09.10, em Curitiba.
Mas, quem disse que somos donos de nossos dias e destino ?
Depois de um telefonema da minha sogra avisando que a tia-avó do meu esposo havia falecido, lá estava eu, às 9h da manhã no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro...

A morte dessa senhora de 86 anos, que eu havia visto apenas uma vez no meu casamento, há pouco mais de um ano, me fez pensar em muitas coisas.
A primeira foi sobre o caos que vive o Rio de Janeiro. Apesar de ela ter pagado durante toda a sua vida um plano de saúde com auxílio-funeral, não havia, em toda a cidade, nenhuma vaga em nenhum cemitério do Rio de Janeiro.
Apenas no outro dia, à tarde, seria possível enterrá-la.
Imaginem o desespero dos familiares e, principalmente, de sua filha única. Alguns exigiam que fosse naquele dia pois não tinham tempo para ficar mais um dia. Outros se revoltavam. Apenas solucionou-se o impasse depois de se pagar um "dinheiro por fora" para alguns dos encarregados do cemitério.

Tudo o que passava pela minha cabeça eram alguns trechos do diálogo de "Antígona" de Sófocles. Primeiro livro que li na Universidade, em 2001, nos meses da greve. A gênese do Direito, ainda na Antiguidade Clássica, está no direito dos familiares de enterrarem seus mortos. Essa peça teatral escrita na Grécia foi a origem do direito natural, do jus cogens de hoje em dia, nos direitos humanos universais.

Será que na corrida humana dos dias atuais perdemos até mesmo o direito mais antigo, que é o de enterrarmos nossos mortos ?

A violência me pareceu tão desafiadora que muitas das pessoas que estavam no cemitério do Caju, lotado no sábado à tarde, comentavam da dificultade em visitar seus entes queridos pois muitos policiais e traficantes estavam enterrados lá e era perigoso frequentá-lo em certas horas do dia...

Segundo. O que nos resta.

Como primeira experiência em participar de um enterro, já aos 26 anos, pude perceber nossa insignificância. Para que tanta pressa, tanta ânsia por vencer e ganhar, por dinheiro, poder e status se tudo acaba em um corpo endurecido e amarelado ? Para que tanta raiva, ódio e rancor se mais cedo ou mais tarde todos iremos acabar debaixo da terra ou queimados em cinzas ?

Há muito tempo preocuva-me apenas com os detalhes esquecendo-me do essencial: as relações humanas e o que deixamos depois de deixarmos de ser.

Lembrei-me da minha família que há muito não vejo em São Paulo, do projeto de filhos que é sempre adiado em prol de trabalho e estudos, dos amigos distantes que nunca temos tempo de visitar ou chamá-los para irem a nossa casa...

Relativizei meus valores.

Ao ver meu esposo junto com outros três de seus primos carregando o caixão de sua última tia viva percebi o quanto amava imensamente aquele homem com quem me casei, e o quis por toda a minha vida. Um misto de dor e amor invadiu meu peito e não pude conter as lágrimas que todos estranhavam já que meu contato com Tia Rosa havia sido mínimo. Naquele momento, vi minha sogra sozinha olhando para seu filho e, pela segunda vez, a perdoei pelas suas palavras outrora tão perversas.

Cheguei a conclusão que o perdão deve vir do coração, e nunca racionalizado. E mais: o perdão é dado várias vezes por nós mesmo, sem que a pessoa que nos magoou nos peça. O perdão é um processo e não uma palavra.

Voltei à Brasília naquele mesmo sábado às 23h da noite. O cheiro das queimadas invadia a cidade por completo. A seca em seu auge de destruição. Talvez uma demonstração da natureza para mim que havia refeito tantos valores e queimado outros tantos depois daquele sábado à tarde.


Maria Helena Notari
27 de setembro de 2010.

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